Editorial

Craques das letras futebolísticas periféricas

A literatura da periferia paulistana está repleta de craques das
letras. Começa com os veteranos Marco Pezão e Sergio Vaz,
criadores do Sarau da Cooperifa. Pezão é cronista que escreve a partir do que testemunha na beira do campo, fazendo cobertura jornalística para um periódico do Taboão da Serra. Sergio é o poeta que diz que não faz poesia: "jogo futebol de várzea no papel". Da mesma geração, professor de educação física, Marcio Batista, outro baluarte da Cooperifa, traz as lembranças do futebol jogado na rua pela molecada: "ki-chutes nos pés/bola de capotão/três paus em cada lado do campo/duas traves sob o travessão". Nesse cenário, rola o clássico da rua doze contra a rua seis. O confronto está empatado e a "nega de três" dará a definição. Alessandro Buzo, no seu primeiro romance Suburbano Convicto, também faz um gol de letra ao abordar o disputado certame entre o time da rua quatro e o da rua cinco valendo uma caixa de
tubaína. Buzo também aborda no livro as dores e delícias da vida de torcedor. Seu personagem no livro, Ricardo, é assim como ele,palmeirense, e amargou 18 anos de fila para então, em 1993, goleando o principal rival ( Corinthians), finalmente gritar: "É campeão!". Allan da Rosa, com uma armação poética que se assemelha a esquemas táticos de arrojada construção, associa a agilidade do camelô de trem para desviar-se do assédio dos seguranças com a perspicácia dos ponteiros da Ponte Preta, não a de Campinas, mas o time do Taboão: "Força nos braços, apruma na ponta do pé, sobe, abaixa./

 

Esperto na mandinga, foi mas não foi/Desarma berimbau, arame fere dedo, rouca será a madrugada/ Costela pêga, resvalada. Abraço no fim do jogo. Axé." Akins Kinte é o poeta da nova geração que mais se dedica ao tema do futebol, inclusive fora das letras. Pelas lentes da câmera ele fez o documentário "A bola rolada na beira do coração". Com uma ginga na escrita que só ele tem, arma versos que parecem dribles com as palavras: "no asfalto quente dribla a pobreza/ um toque e sai, comida na mesa/respeito com a malandragem"./ No tapetão ligeiro endoida/ bico sujo se incomoda/rolinho pra fica ligeiro". Elizandra Souza ganhou lugar no time com um golaço de letra: "A bola vai e a vida vem". Neste poema publicado no seu mais recente livro Águas da Cabaça, a autora aborda o lugar da mulher nos terrões periféricos: "Mulheres na várzea/ dão vasão ao infinito/Um sopro de vida/um suspiro de gol". Belos versos que conferem elegância feminina às acirradas disputas onde os homens monopolizam a bola. Agora chegou a vez de Michel Yakini com suas crônicas que discorrem sobre suas experiências tanto de jogador quanto de torcedor. Um grande lançamento que o colocará com justiça na galeria dos craques das letras futebolísticas periféricas.