Editorial

Vai-se o artista mas sua arte sempre se negará a morrer

A cultura brasileira sofreu um golpe muito duro em julho.
Faleceram João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Rubem Alves na mesma semana. As letras emudeceram. E no samba perdemos o Paquera (foto), integrante da ala de compositores da Vai Vai há mais de 30 anos. Fundador do Samba da Vela em 2000 junto com Chapinha, Magno e Maurílio, essa roda de samba que há 14 anos se reúne toda segunda-feira numa
autêntica celebração do samba de terreiro. Paquera nos deixou depois de lutar muito contra um câncer. No dia 24 de julho seu corpo não resistiu mais à agressão dessa doença atroz. Em maio foi a vez do Jair Rodrigues nos deixar, assim subitamente num momento em que surpreendia a todos pelo vigor físico e criativo. Quem esteve no espetáculo de abertura do Estéticas das Periferias em 2013 pode testemunhar a exuberância de um artista em plena forma. Jair levantou o público no Auditório Ibirapuera: "preparem seu coração..." entoou com seu vozerão levando ao delírio uma plateia arrebatada. Mas ele foi traído pelo seu próprio coração que se negou a bater, sem ao menos avisar. Parou de uma vez; foi-se o Jair. Um pouco antes, em abril, o dramaturgo e ator Mario Pazini também nos deixou um pouco órfãos. Assim como Paquera, Pazini foi vítima de um câncer, doença avassaladora da qual poucos escapam. O criador do Grupo Clariô e do Espaço Clariô no Taboão da Serra, cumpriu sua missão na terra e deixou um legado fundamental para o teatro feito por grupos suburbanos. Pazini foi daqueles que acreditam estar desenvolvendo uma estética da periferia. E ele conseguiu. O

 

espetáculo Hospital da Gente é uma demonstração inequívoca de que há uma arte própria das margens. Todos esses artistas vivem em outro plano, na dimensão só alcançada pelos que, merecedores da eternidade, abriram mão de viver nessa terra. Uma terra, cujos encantos as vezes se perde em meio a tanta injustiça e desgraça. Que as centenas de crianças palestinas mortas pela truculência de uma guerra insana sejam anjos a rodearem nossos heróis guerreiros da cultura, das artes e da paz. João, Jair, Ariano, Rubem, Mario e Paquera ficarão eternos na saudade dos que os amavam. Eternas também serão suas obras que de tão belas, se negarão sempre a nos deixar. Por isso vamos exautá-los junto com Carolina Maria de Jesus que nos deixou há quase 40 anos e Abdias do Nascimento, artista negro que viveu mais de 90 anos e há pouco tempo estava entre nós. Ambos nasceram em 1914 e estão fazendo 100 anos. Celebremos a todos em agosto, mês da redenção. Mês em que acontece mais uma edição do Encontro Estéticas das Periferias, um evento que enaltece a arte das bordas das metrópoles pelo vigor de suas elaborações estéticas. A edição 2014 do Estéticas das Periferias homenageia Carolina e Abdias e é dedicada a Paquera, Pazini e Jair Rodrigues. Que todos eles estejam entre nós mantendo nossa inspiração e disposição para continuar na luta. Viva Carolina e Abdias! Viva Paquera e Pazini! Viva Ariano, Ubaldo e Rubem Alves! Que vivam as crianças da Palestina!